Fortalecer anos finais é decisivo para a educação básica

*Por Ana Paula Pereira, diretora-executiva do Instituto Sonho Grande, Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, e Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, da Fundação Itaú, para O Globo
Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2025 trazem uma boa notícia e uma reflexão urgente para a educação pública brasileira. Os anos finais do Ensino Fundamental registraram avanço no desempenho em língua portuguesa e matemática, mas isso ainda está longe de significar que os adolescentes estejam aprendendo o suficiente.
Enquanto os anos iniciais (1º ao 5º ano) alcançaram, pela primeira vez em 20 anos, a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE), os anos finais (6º ao 9º ano) permanecem 0,5 ponto abaixo do objetivo previsto para a rede pública. O país começa a colher os resultados dos esforços realizados nos últimos anos, mas precisa transformar essa recuperação em trajetória consistente de melhoria.
Em 2025, quase 10 milhões de estudantes cursavam os anos finais da rede pública. Essa geração passou os anos iniciais na pandemia, e isso contribuiu para o acúmulo de defasagens. Nos anos finais, é preciso consolidar as bases dos anos iniciais, fortalecer o vínculo com a escola e preparar para o Ensino Médio. Quando a transição não acontece de forma adequada, o percurso educacional fica comprometido.
O cenário revelado pelo Saeb mostra por que essa lógica precisa mudar. Segundo o parâmetro de aprendizagem adequada, definido pelo Todos pela Educação, 8 em cada 10 estudantes do 9º ano não alcançaram o desempenho esperado em matemática. Isso significa que não conseguem calcular nem porcentagens com números inteiros. Apesar da evolução entre 2023 e 2025, o desempenho nessa disciplina ainda não retornou ao nível de 2019.
Em Língua Portuguesa, o desempenho retornou aos níveis pré-pandemia, mas três a cada cinco estudantes ainda não aprendem adequadamente ao final do 9º ano. O dado reforça que o desafio na etapa engloba ambas as disciplinas e que a dívida com os adolescentes brasileiros impacta o exercício da cidadania e o desenvolvimento pleno.
Já existem iniciativas promissoras para reverter esse quadro, como o Programa Nacional Escola das Adolescências, que promove práticas pedagógicas mais conectadas às transformações cognitivas, emocionais, sociais e identitárias da adolescência. O Compromisso Nacional Toda Matemática fortalece a definição de parâmetros e referências para garantir aprendizagens adequadas nessa disciplina em todas as etapas da educação básica.
Tais políticas são potencializadas quando articuladas ao Programa Escola em Tempo Integral, que viabiliza essas estratégias ao ampliar oportunidades de aprendizagem, convivência e protagonismo na escola. No Saeb 2025, estudantes do 9º ano que frequentam escolas 100% integrais obtiveram resultado 5,6% superior ao das escolas de tempo parcial em Matemática, ponto mais crítico desta edição.
Nada disso será suficiente sem forte compromisso com a implementação. As matrículas do 6º ao 9º ano se dividem entre redes estaduais e municipais, tornando indispensável o regime de colaboração. Além disso, a jornada ampliada deve estar associada a uma proposta pedagógica intencional, à valorização dos profissionais da educação e à infraestrutura e ao financiamento adequados.
A recuperação também não acontece no mesmo ritmo para todos. Por isso, ampliar a transparência dos dados educacionais, com recortes de raça ou cor, gênero e renda, é essencial para orientar políticas públicas mais eficazes.
Neste período eleitoral, os dados educacionais dão um recado importante ao novo ciclo político. O Brasil mostrou que é possível melhorar a aprendizagem dos adolescentes, mas consolidar o progresso exigirá continuidade das políticas que funcionam, coordenação federativa e compromisso permanente com qualidade e equidade. Colocar as adolescências no centro da agenda significa reconhecer suas pluralidades e seu potencial para a construção de um futuro mais justo para todo o país.

