Ensino noturno: é possível garantir a mesma qualidade do diurno?


Podcast Instituto Natura debate os desafios de aprendizagem e as políticas necessárias para ampliar acesso à educação em tempo integral

Para muitos jovens brasileiros, as aulas começam depois de um dia de trabalho ou de responsabilidades familiares. Nas últimas décadas, as matrículas noturnas diminuíram, mas essa rotina ainda faz parte da vida de muitos estudantes: segundo o Censo Escolar, pelo menos 1,5 milhão de alunos frequenta o Ensino Médio regular à noite, metade dos quase três milhões do início dos anos 2010. Os números não incluem a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que também concentra uma parcela expressiva de estudantes no período noturno.

A redução coloca uma questão para as políticas educacionais: como ampliar o acesso ao ensino diurno, especialmente em tempo integral, sem prejudicar quem precisa trabalhar? Esse é um dos temas do novo episódio do Podcast Instituto Natura, em que David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura, conversa com Vinícius Neiva, secretário executivo da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

O tempo disponível é um dos principais obstáculos. A jornada noturna prevê quatro horas diárias, mas parte da carga horária é cumprida por meio de atividades complementares, como tarefas realizadas em casa, O secretário observa ainda que, na prática, as aulas após as 22h frequentemente deixam de acontecer, reduzindo o tempo presencial disponível para trabalhar os conteúdos curriculares. “Temos que ensinar o aluno com 25% a menos do tempo”, afirma Vinícius. “Discutimos a ampliação do tempo integral para sete ou nove horas diárias, pelo menos 35 horas semanais. Hoje, o aluno do noturno estuda 20 horas a menos do que aquele que está no integral de sete horas.”

Entre a necessidade de trabalhar e o direito de estudar

“Eles querem ou precisam trabalhar? Uma coisa é não dar tanto valor aos estudos e trabalhar porque quer comprar um tênis. Outra é a família não ter renda suficiente e, se o jovem não trabalhar, não conseguir pagar o aluguel ou comprar comida. De que realidade estamos falando?”, questiona David. 

Uma pesquisa realizada em 2024 com mais de 200 mil alunos do período noturno da rede estadual paulista mostrou que mais de 75% queriam trabalhar e cerca de 60% dos estudantes a partir do segundo ano do Ensino Médio já exerciam alguma atividade profissional. Segundo Vinícius, há jovens que buscam independência financeira, enquanto outros precisam contribuir para o sustento familiar, inclusive em regiões agrícolas.

Para atender a essas diferentes realidades, a Secretaria da Educação de São Paulo está testando um modelo de ensino profissionalizante com aulas das 17h às 22h e reorganização curricular que concentra os conteúdos prioritários nas primeiras horas, quando os alunos tendem a apresentar melhores condições de aprendizagem. “Se uma escola é ruim e passa a ser integral, você apenas aumenta a quantidade de horas ruins oferecidas ao aluno. É preciso ter professores que entendam essa realidade, trazer novas práticas pedagógicas, adaptar o material e priorizar o currículo”, pondera Vinícius.

Os resultados das avaliações educacionais mostram que ainda há uma distância a superar. De acordo com o secretário, o desempenho médio dos alunos do noturno é inferior ao dos matriculados no diurno, tanto em jornadas parciais quanto integrais. Na rede paulista, as medidas para enfrentar essa diferença incluem priorização de Língua Portuguesa e Matemática, distribuição de materiais didáticos próprios e o acompanhamento das atividades complementares, ainda sem resultados suficientes para avaliar seus efeitos nas provas padronizadas.

Como ampliar o ensino diurno sem excluir estudantes?

“Não seria o caso de, no médio prazo, termos outros tipos de políticas, inclusive sociais, para reduzir o ensino noturno e permitir que todos os jovens estudem em escolas diurnas, em tempo integral?”, coloca David.

Na rede estadual de São Paulo, que contava com aproximadamente 350 mil matrículas noturnas quando a atual gestão assumiu, a expectativa apresentada por Vinícius é reduzir esse contingente para cerca de 150 mil. O planejamento inclui investimentos superiores a R$ 400 milhões na construção de mil salas de aula, além da reorganização da oferta escolar e de programas de apoio financeiro, como o Aluno Monitor, com bolsa de R$ 500, e iniciativas de ensino profissionalizante com benefícios que podem chegar a R$ 900.

O ensino técnico integra essa estratégia ao aproximar os conteúdos escolares de aplicações profissionais. Segundo Vinícius, cursos como Administração, Logística e Desenvolvimento de Sistemas podem expandir as perspectivas de progressão na carreira, inclusive para quem já trabalha.

Ampliar o acesso ao ensino diurno exige, portanto, mais do que reorganizar a oferta de vagas. É preciso considerar as condições de vida dos jovens para que a mudança não comprometa sua permanência na escola.

Ouça o episódio completo

O Podcast Instituto Natura conta com episódios quinzenais publicados às segundas-feiras. Ouça o episódio completo nas plataformas de áudio e acompanhe outras conversas sobre os desafios e as oportunidades da educação na América Latina.

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