Um ano sem celular nas escolas: o que mudou?


Pesquisa com mais de 2,4 mil gestores ajuda a entender os primeiros efeitos percebidos após a restrição do uso dos aparelhos e os desafios que ainda permanecem nas escolas.

Há pouco mais de um ano, uma cena até então corriqueira começou a mudar nas escolas brasileiras. Com a entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos pessoais passou a ser restrito durante as aulas, o recreio e os intervalos em instituições públicas e privadas de Educação Básica, preservadas as exceções previstas pela legislação.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Educação, em parceria com o Inep e o Instituto Alana, traz agora as primeiras pistas sobre como a medida chegou às escolas. Mais de 2,4 mil gestores, de todas as regiões do país, participaram do levantamento, e mais de 90% afirmam que a lei já foi implementada em suas unidades. Entre os profissionais ouvidos, 97% relatam maior participação dos estudantes nas atividades pedagógicas, 95% percebem mais concentração e socialização e 88% associam a restrição dos celulares à redução de conflitos e cyberbullying.

Os números são expressivos, mas precisam ser lidos dentro dos limites da própria pesquisa: refletem a percepção dos gestores e um período ainda inicial para avaliar efeitos mais profundos sobre aprendizagem e convivência. É com esse recorte que o novo episódio do Podcast Instituto Natura faz um balanço da medida. David Saad, diretor-presidente da entidade, conversa com a socióloga e pesquisadora Flora Ariza, consultora da Unesco para o Ministério da Educação e integrante da equipe responsável pelo levantamento, sobre o que os dados já permitem observar e quais questões ainda dependem de tempo e novas análises.

A abrangência alcançada pela lei foi um dos resultados que chamou a atenção dos pesquisadores. Havia expectativa de uma adesão significativa, diante das dificuldades que professores e equipes escolares relatavam para lidar com o celular no cotidiano, mas o alcance registrado superou o esperado. No entanto, colocar a regra em prática envolve mais do que retirar o aparelho das mãos dos estudantes. Cada escola precisou definir, por exemplo, formas para a guarda dos celulares e estratégias de diálogo com estudantes e famílias. Para a pesquisadora, o desafio mais complexo está na construção de uma nova cultura de uso.

A legislação também ajudou a dividir uma responsabilidade que recaía fortemente sobre professores e gestores. Como a relação de crianças e adolescentes com os dispositivos digitais ultrapassa os muros da escola, estabelecer uma regra nacional amplia o debate e envolve famílias, governos e outros atores sociais, em vez de deixar que as tensões sejam administradas caso a caso dentro das unidades escolares.

Os relatos sobre a convivência dão uma medida do que já mudou no cotidiano. Nos momentos de recreio e intervalo, por exemplo, gestores observaram maior presença de esportes, conversas e atividades manuais em espaços antes ocupados pela interação com as telas. Ao mesmo tempo, 71% discordam que a restrição tenha limitado o desenvolvimento de habilidades digitais dos estudantes — um resultado que ajuda a separar duas discussões que nem sempre caminham juntas.

A própria lei estabelece essa diferença. O celular pode continuar sendo utilizado em atividades didáticas, com mediação dos professores e objetivos definidos; a restrição se dirige ao uso não pedagógico do aparelho. É nesse ponto da conversa que David amplia a discussão: “Proíbe-se o celular hoje, mas surge a Inteligência Artificial amanhã”.

A pergunta desloca o foco do dispositivo para o uso que se faz dele. “A lei do celular não é uma proibição geral da tecnologia; ela rege os usos não pedagógicos”, explica Flora. Segundo a pesquisadora, reduzir as interferências do aparelho no cotidiano também pode abrir espaço para que professores proponham outras atividades tecnológicas de forma mais intencional, uma questão que ganha importância à medida que ferramentas como a Inteligência Artificial passam a fazer parte da realidade educacional.

No episódio, Flora lembra que o Ministério da Educação publicou um documento orientador sobre IA que trata tanto de seu estudo como objeto de conhecimento quanto de sua utilização como ferramenta pedagógica, com critérios éticos, de segurança e de avaliação. Em vez de proibir a tecnologia, a orientação é preparar redes e professores para incorporá-la de forma qualificada e responsável.

O levantamento sobre os celulares deverá ter novas camadas. Ouvir estudantes e famílias aparece como uma possibilidade para pesquisas futuras. Permanecem também questões práticas, como o cumprimento das regras e a guarda dos aparelhos, além de um desafio mais amplo: ajudar crianças e adolescentes a construir uma relação mais consciente com as tecnologias.

Mais do que decidir se determinado aparelho pode ou não entrar na escola, será preciso discutir quando, como e com que finalidade as tecnologias devem fazer parte da experiência educacional. Uma construção que não cabe apenas a professores e gestores, mas envolve também famílias, governos e a sociedade.

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