Mais de 4,4 milhões de mulheres com deficiência já sofreram violência doméstica ou familiar no Brasil

Novo recorte disponível no Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra maior ocorrência de violências sexual e patrimonial e diferenças no acesso à informação e aos mecanismos de proteção
Neste 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, o Mapa Nacional da Violência de Gênero passa a reunir dados inéditos sobre as violências vividas por mulheres com deficiência no Brasil. A plataforma é mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), do Senado Federal, Instituto Natura e Gênero e Número.
O novo recorte mostra que 38% das mulheres com deficiência já sofreram violência doméstica ou familiar praticada por homens, ante 28% das mulheres sem deficiência. Os dados também revelam maior frequência das violências sexual e patrimonial, menor conhecimento sobre direitos e mecanismos de proteção e situações de violência que se prolongam por mais tempo.
Os dados são da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência. Pela primeira vez, o levantamento incorporou a autoidentificação de mulheres com deficiência. Foram entrevistadas 21.641 brasileiras de 16 anos ou mais, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. Desse total, 2.828 se autodeclararam mulheres com deficiência, o equivalente a 13% da amostra e a uma população estimada de 11,7 milhões de mulheres no país.
A edição de hoje da Folha de S. Paulo ouviu Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, sobre a divulgação do novo recorte do Mapa. Confira:

Folha de S. Paulo
Violência doméstica atinge 38% das mulheres com deficiência no Brasil
Violências sexual e patrimonial são mais frequentes
Entre as mulheres entrevistadas que relataram violência doméstica ou familiar, 39% das vítimas com deficiência mencionaram violência sexual, contra 28% daquelas sem deficiência. A violência patrimonial atingiu 46% e 39%, respectivamente. Já as violências psicológica, moral e física aparecem em proporções semelhantes nos dois grupos.
As diferenças também aparecem no acesso à informação: 18% afirmam não ter nenhum conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, o dobro do registrado entre as mulheres sem deficiência (9%); sobre as medidas protetivas, 23% afirmaram não ter nenhum conhecimento, contra 15% das mulheres sem deficiência.
“Os números apontam a necessidade de campanhas de conscientização e políticas públicas inclusivas e abrangentes, que deem conta do cenário macro de violência contra mulheres no Brasil, mas que olhem também para as necessidades específicas dos grupos mais vulneráveis, como as mulheres com deficiência”, afirma Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil.
Situações de violência se prolongam por mais tempo
Entre as mulheres com deficiência que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa, 69% relatam que a situação já durava havia mais de um ano, percentual 15 pontos superior ao registrado entre as mulheres sem deficiência (54%); 83% delas não denunciaram o caso e 16% recorreram ao Ligue 180. Entre aquelas que solicitaram uma medida protetiva de urgência, houve descumprimento da ordem pelo agressor em 19% dos casos.
Em 65% dos casos, os agressores eram maridos ou companheiros no momento da agressão mais grave relatada, e a primeira agressão ocorreu até os 19 anos para 36% das vítimas e entre os 20 e 29 anos para outras 24%. Medo do agressor (17%) e descrença na punição (16%) aparecem como os principais motivos para não denunciar.
Para Sidney Bissoli, coordenador substituto do Instituto de Pesquisa DataSenado, é fundamental conhecer a dimensão da violência para avançar e compreender como ela se manifesta entre diferentes grupos de mulheres. “Ao incorporar a deficiência à pesquisa, conseguimos revelar desigualdades que os dados gerais não mostram e produzir evidências mais qualificadas para o enfrentamento à violência”, afirma.
A pesquisa também aponta diferenças relacionadas à autonomia econômica: 78% das entrevistadas informaram que não realizam trabalho remunerado e 48% disseram não conseguir se sustentar com o próprio dinheiro, contra 31% das mulheres sem deficiência. Oito em cada dez vivem com renda familiar de até dois salários-mínimos e, entre as que trabalham, 46% atuam por conta própria (72% na informalidade). Apenas 11% concluíram o ensino superior e 10% declararam não ser alfabetizadas.
“Incorporar a deficiência como dimensão de análise permite compreender não só como a violência atinge essas mulheres, mas também as barreiras que elas enfrentam para reconhecer a agressão, acessar informações, buscar ajuda e obter proteção. É esse cruzamento que transforma o dado em instrumento para políticas públicas mais inclusivas e efetivas”, diz Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.
Acesse o Mapa Nacional da Violência de Gênero e conheça os dados completos da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher.



