Copa do Mundo 2026: registros de lesão corporal contra mulheres sobem 20,8% quando há partidas de futebol, mostra estudo


Cruzamento de dados realizado em parceria entre Instituto Natura e Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela cenário preocupante na relação entre futebol e violência contra mulheres

O estudo Violência contra Mulheres e o Futebol, do Instituto Natura e do Fórum Nacional de Segurança Pública, tem tido bastante repercussão na mídia em matérias que apontam para um alerta urgente: o risco de aumento substancial dos casos de violência contra mulheres em dias de partidas de futebol.

Segundo o estudo de 2022, que cruzou microdados de ocorrências policiais com o calendário de jogos da Série A do Campeonato Brasileiro de 2015 a 2018, focando em cinco grandes capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre), o número de registros de Boletins de Ocorrência de ameaça contra mulheres aumenta em 23,7% e o número de B.O.s de lesão corporal aumenta em 20,8%.

 “Os dados sugerem que determinados contextos associados ao futebol podem funcionar como catalisadores de violências que já encontram terreno fértil em relações marcadas por desigualdades de gênero. Isso aparece tanto em conflitos entre torcedores quanto, especialmente, no ambiente doméstico e familiar”, afirma Beatriz Accioly, antropóloga e gerente do compromisso pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura.

O problema não é o futebol em si, mas a forma como determinadas expressões de masculinidade associadas à competitividade, ao controle e à agressividade podem ser reforçadas nesses contextos”, destaca a especialista.

Segundo o levantamento:

  • Fator “casa”: Quando a partida é disputada na própria cidade do time, o pico de agressividade é ainda maior, gerando um salto de 25,9% nos registros de lesão corporal contra mulheres;
  • Perfil dos agressores: A maioria dos autores de violências contra mulheres registradas em dia de jogo de futebol são descritos como companheiros ou ex-companheiros das mulheres agredidas;
  • Fator Racial: O racismo estrutural se reflete diretamente na vulnerabilidade das vítimas. Em Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as mulheres negras correspondem a metade ou mais dos casos de ameaças e agressões, chegando a representar expressivos 85% dos casos de agressão física na capital baiana;
  • Idade: A maior parte das mulheres que registram ocorrências de ameaça tem entre 30 e 49 anos. Já os casos de agressão física (lesão corporal) concentram-se majoritariamente entre mulheres mais jovens, na faixa dos 18 aos 29 anos.

Resposta precisa unir conscientização e políticas públicas

Para o Instituto Natura e a Avon, o estudo alerta para a necessidade de reforço em serviços de apoio durante dias de jogos de futebol, políticas públicas que considerem este cenário e campanhas de conscientização voltadas para ambientes como estádios e canais de transmissão.

É importante destacar que o futebol não causa a violência contra as mulheres. O que os dados mostram é que determinados contextos podem aumentar a frequência ou a intensidade de agressões já sustentadas por desigualdades de gênero. Por isso, compreender esses padrões é fundamental para orientar estratégias de prevenção”, afirma Beatriz Accioly.

De acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, o Brasil registra, em média, quatro mulheres mortas todos os dias simplesmente pelo fato de serem mulheres. O número é de 2025 e baseado nos registros do Ministério da Justiça dispostos no Mapa, uma plataforma pública mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal, em parceria com o Instituto Natura e a associação Gênero e Número.

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