Ceará avança no Ensino Médio Integral e se consolida como referência em educação pública no Brasil


Visitas a escolas em Fortaleza e Horizonte mostraram como a educação integral vem impactando permanência escolar, aprendizagem e projeto de vida de estudantes em diferentes territórios.

Com 88% das escolas estaduais de Ensino Médio funcionando em tempo integral, o Ceará consolidou uma das maiores redes de educação integral do país. São 613 unidades distribuídas em 181 municípios, atendendo cerca de 200 mil estudantes em todo o estado.

Os números ajudam a explicar por que o Ceará passou a ocupar posição de destaque na expansão do Ensino Médio Integral (EMI), modelo que amplia a jornada escolar e propõe uma formação voltada não apenas à aprendizagem acadêmica, mas também ao desenvolvimento de competências socioemocionais, ao projeto de vida e à permanência dos jovens na escola.

Foi para conhecer de perto experiências ligadas a essa política pública que representantes do Instituto Natura, especialistas e lideranças da educação participaram, nos dias 7 e 8 de maio, de uma imersão em Fortaleza e Horizonte, na região metropolitana da capital cearense.

Em encontro com a comitiva, a secretária de Educação do Ceará, Jucineide Fernandes, reforçou que a política de educação integral vai além da ampliação da jornada escolar.

É uma política importante para a sociedade cearense e para cada estudante individualmente, com proteção social, segurança alimentar, potencialização das aprendizagens e desenvolvimento integral

Jucineide Fernandes, secretária de Educação do Ceará

Educação integral ganha espaço nas políticas públicas

A agenda acontece em um momento de ampliação do debate sobre educação integral no país. Sancionado em abril de 2026, o novo Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu metas de expansão da educação integral na rede pública ao longo da próxima década. Entre elas, a previsão de que, até 2036, 65% das matrículas da rede pública sejam ofertadas em tempo integral, de forma a atender pelo menos metade dos estudantes da educação básica.

Os dados mais recentes do Censo Escolar mostram que o modelo segue em crescimento no Brasil. Em 2025, 37,9% das escolas estaduais brasileiras já ofertavam Ensino Médio Integral, ante 35,3% no ano anterior. Nas matrículas, o avanço foi de 19,4% para 24,2%.

Apesar da expansão, o cenário ainda é desigual entre os estados. Enquanto parte das redes ampliou rapidamente a oferta de tempo integral nos últimos anos, outras seguem em ritmo lento ou mantêm o modelo como exceção.

Para Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, a expansão do Ensino Médio Integral ainda precisa ganhar escala no país.

Hoje, apenas um quarto das matrículas do Ensino Médio brasileiro está em tempo integral. É uma política muito potente, que traz resultados concretos e muda a vida dos jovens que passam por esse tipo de escola

Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação

Ceará, Pernambuco e Piauí estão entre os estados que mais avançaram na consolidação da política. No Ceará, o ensino em tempo integral começou a ser implementado em 2008, com a criação das escolas estaduais de educação profissional, que integram Ensino Médio e formação técnica. Em 2016, o estado ampliou a estratégia com a implantação das Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral.

Escola e território

A programação da imersão incluiu visitas à EEMTI Maria Menezes de Serpa, em Fortaleza, e à EEMTI Quilombola Antônia Ramalho da Silva, em Queimadas, distrito de Horizonte.

Inaugurada em agosto de 2025, a unidade quilombola é a segunda escola quilombola do Ceará e a primeira, nessa modalidade, a ofertar Ensino Médio em tempo integral. A escola começou com 70 estudantes e chegou a 266 matrículas no ano letivo de 2025.

Ali, o currículo parte das vivências da própria comunidade. Questões ligadas à ancestralidade, oralidade, territorialidade, saúde da população quilombola e memória coletiva fazem parte da rotina pedagógica da escola.

Mais do que ampliar o tempo de permanência dos estudantes, a proposta busca fortalecer vínculos entre escola, comunidade e identidade cultural.

A gente vê na prática como professores, estudantes e gestores trabalham juntos para que essa política dê certo. É um conjunto de estratégias que envolve infraestrutura, formação de professores, esporte, arte, acolhimento e reconhecimento das identidades locais”

Rita Potyguara, diretora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO Brasil)

A comunidade de Alto Alegre, onde está localizada a escola, foi reconhecida como território quilombola pelo Incra em 2012 e mantém tradições ligadas à medicina ancestral, ao artesanato e ao bordado, elementos que também atravessam o cotidiano da escola.

Impactos que vão além da aprendizagem

As evidências sobre os impactos do Ensino Médio Integral ajudam a explicar o avanço da política em diferentes estados brasileiros. Estudos reunidos pelo Instituto Natura, Instituto Sonho Grande e Centro de Evidências da Educação Integral apontam que estudantes do modelo têm menor risco de evasão escolar, maior probabilidade de ingresso no Ensino Superior e melhores indicadores de aprendizagem.

Segundo os dados apresentados durante a imersão, o Ensino Médio Integral reduz em 10,6 pontos percentuais as chances de evasão e aumenta em 17 pontos percentuais a probabilidade de acesso ao Ensino Superior. A diferença de aprendizagem entre escolas integrais e regulares chega a aproximadamente um ano letivo em Língua Portuguesa e um ano e meio em Matemática.

As pesquisas também apontam impactos sociais relevantes, como redução da desigualdade salarial entre estudantes negros e brancos e diminuição das taxas de homicídio entre jovens de 15 a 17 anos.

Para Iara Viana, gerente de Políticas Públicas de Ensino Médio no Instituto Natura, a experiência no Ceará mostra como a educação integral ganha força quando considera os diferentes territórios e contextos dos estudantes.

Cada estudante consegue buscar e revelar aquilo que quer para si. Um projeto de vida atrelado aos sonhos, com professores engajados e uma rede que entende que modalidades como a educação quilombola também precisam usufruir plenamente desse direito educacional

Iara Viana, gerente de Políticas Públicas de Ensino Médio no Instituto Natura

Ao longo das visitas, a imersão colocou lado a lado gestores, educadores, especialistas e estudantes que convivem diariamente com os desafios e oportunidades da expansão do Ensino Médio Integral. Em comum, as experiências apresentadas mostraram que a ampliação da jornada escolar está diretamente ligada à permanência dos jovens na escola, ao fortalecimento da aprendizagem e à construção de perspectivas de futuro.

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