Panorama do Câncer de Mama: 51% dos diagnósticos no SUS ocorrem em estágios avançados

Novos dados apresentados pelo Instituto Natura no 13º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer revelam maior proporção de casos avançados entre mulheres jovens.
Mais de cinco em cada dez mulheres com câncer de mama atendidas pelo SUS entre 2015 e 2025 receberam o diagnóstico nos estágios 3 ou 4 da doença (51%). Entre as pacientes de 20 a 29 anos, são quase sete em cada dez (68,3%). Os números mostram que a descoberta tardia da doença ainda é uma realidade no país e atinge, proporcionalmente, ainda mais as mulheres jovens.
Os dados fazem parte da nova edição do Panorama do Câncer de Mama no SUS, que também aponta queda nas mamografias de rastreamento pelo segundo ano consecutivo e mostra que o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento ainda ultrapassa o prazo previsto em lei.
Os resultados foram apresentados durante o 13º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), o maior evento de oncologia do país, por Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura, no painel de abertura oficial do Outubro Rosa, “Multiplicando conhecimento do câncer de mama”.
“Há um importante atraso no diagnóstico e no tratamento. O Panorama nos permite enxergar onde estão os principais desafios, onde precisamos avançar. Monitorar esses dados é fundamental para apoiar políticas públicas de qualidade e baseadas na compreensão dos reais desafios, além de ampliar a conscientização das mulheres, para que elas conheçam a importância da detecção precoce, realizem os exames indicados e encontrem a assistência de que precisam no momento certo”, afirma Mariana. “Informação, acesso e oferta precisam caminhar juntos para aumentarmos as chances de prognóstico positivo.”
O Panorama é uma iniciativa do Instituto Natura e da Avon, em parceria com o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer e o Instituto Protea. Nesta edição, o estudo passou a utilizar informações mais recentes do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para analisar os diagnósticos e o tempo entre a confirmação da doença e o início do tratamento.
O recorte por idade detalha a diferença entre as faixas analisadas. Dos 30 aos 39 anos, 61,9% dos casos foram diagnosticados nos estágios 3 ou 4; dos 40 aos 49, 53,7%; e, entre as mulheres de 50 a 69 anos, 47,6%.
O câncer de mama é menos frequente nas mulheres mais jovens, que não fazem parte da faixa prioritária para o rastreamento populacional. Por isso, conhecer os sinais e sintomas e ter acesso à investigação de alterações suspeitas são especialmente importantes nesse grupo. A mamografia para investigação diagnóstica pode ser indicada pelo SUS em qualquer idade, conforme avaliação profissional.
A divulgação do Panorama foi amplamente noticiada na imprensa nacional. O G1 destacou a alta proporção de casos identificados em estágios avançados entre mulheres de 20 a 29 anos. Já a CNN Brasil abordou o cenário no conjunto das faixas etárias analisadas e chamou atenção para a situação das pacientes mais jovens. O levantamento também foi repercutido pela CBN, no programa Saúde em Foco, com o Dr. Luis Fernando Correia e, no R7, citado em reportagem sobre a importância da mamografia de rastreamento e a baixa cobertura do exame no país.
Mamografias caem pelo segundo ano consecutivo
O número de mamografias de rastreamento realizadas pelo SUS voltou a cair. No recorte de 50 a 69 anos usado pelo Panorama para acompanhar a série histórica, a cobertura mamográfica ficou em 22,1% em 2025, ante 22,8% no ano anterior, ou seja, apenas 22 mamografias de rastreamento para cada 100 mulheres. A referência estabelecida pela Organização Mundial da Saúde é de 70%.
Há diferenças importantes pelo país. A região Sul apresentou a maior cobertura em 2025, com 25,6%, enquanto Norte e Centro-Oeste registraram 10,6% e 13,5%, respectivamente. Entre os estados, Piauí (32,4%), Bahia (28,8%) e São Paulo (28,7%) tiveram os maiores percentuais; Tocantins (5,8%), Rondônia (7,9%) e Pará (8,7%), os menores.
Desde 2025, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Mulheres de 40 a 49 anos também podem realizar o exame no SUS sob demanda, após orientação profissional sobre riscos e benefícios.
Para Mariana, para ampliar o acesso é necessário ter conhecimento. Ela chama atenção para a necessidade de alcançar mulheres que ainda não conhecem seus direitos ou ficam fora do alcance das campanhas de conscientização: “Como a gente consegue sair desse mês e falar sobre isso o ano inteiro?”.
Essa é a reflexão por trás de “Se tem mama, tem conversa”, campanha da Avon e do Instituto Natura para o Outubro Rosa deste ano. A iniciativa propõe que informações confiáveis sobre o câncer de mama circulem durante todo o ano, alcancem cada vez mais pessoas e contribuam para a detecção precoce da doença. No Brasil, a campanha é endossada pelo Movimento pelo Cuidado das Mamas, iniciativa do Instituto Natura e da Avon em parceria com a RD Saúde, o Instituto Oncoguia e a Rede Feminina de Combate ao Câncer, criada para ampliar a conscientização sobre a saúde das mamas para além do mês de outubro.
Espera pelo tratamento ainda ultrapassa prazo previsto em lei
O diagnóstico é apenas uma parte do percurso. Depois dele, o tempo até o início do tratamento continua sendo um problema: entre 2015 e 2025, a espera média no SUS foi de 123 dias, mais que o dobro do prazo máximo de 60 dias estabelecido pela legislação brasileira.
Houve melhora em 2025, quando a média caiu para 86 dias, mas 57,2% das pacientes ainda começaram a ser tratadas depois dos 60 dias. Considerando todo o período analisado, aproximadamente 62% ultrapassaram esse limite. A demora varia entre os estados: no último ano da série, as maiores médias foram registradas em Sergipe, com 115 dias; Rio de Janeiro, com 107; e Bahia, com 100 dias.
Ao longo desses dez anos, o Brasil registrou 203.785 mortes por câncer de mama. Só em 2025 foram 21.668, o maior número da série histórica. Entre esses óbitos, 55,4% ocorreram entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.
“Com dados mais recentes do Painel de Oncologia do INCA, conseguimos compreender com maior precisão a jornada das pacientes, identificar gargalos e desigualdades e produzir evidências que contribuam para políticas públicas mais efetivas. Dados atualizados são fundamentais para transformar informação em ações concretas de cuidado”, afirma Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.
A conversa continua
A campanha “Se tem mama, tem conversa” acontece simultaneamente na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru, com conteúdos adaptados às realidades e aos idiomas de cada país. O convite é para que o cuidado com a saúde das mamas não saia de pauta depois do Outubro Rosa.
Na página da campanha, você encontra conteúdos confiáveis para se informar e compartilhar, além do Panorama do Câncer de Mama, do Índice de Conscientização sobre a Saúde das Mamas, orientações sobre os direitos das pacientes, guias de bolso, materiais compartilháveis e informações para acessar o Ligue Câncer, canal gratuito do Instituto Oncoguia que recebe investimento do Instituto Natura.
Acesse “Se tem mama, tem conversa”, informe-se e ajude essa conversa a chegar a mais pessoas.








