Pesquisa revela que mais da metade das mulheres trans e travestis entrevistadas sofreu violência no último ano

Discriminação, agressões e exclusões cotidianas continuam afetando a vida de muitas mulheres trans e travestis. Novo levantamento reúne evidências que ajudam a dar maior visibilidade a essas experiências e a fortalecer políticas públicas de prevenção e proteção.
Um recorte inédito da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, conduzida pelo DataSenado e a Nexus, ganhou destaque em alguns dos principais veículos de comunicação do país. Os resultados passam a integrar o Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma desenvolvida em parceria entre o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), o Instituto Natura e a Gênero e Número.
Entre as 43 mulheres trans e travestis entrevistadas, 56% relataram ter vivenciado situações compatíveis com violência nos últimos 12 meses. Entre as ocorrências mais frequentes, estão agressões verbais relacionadas ao fato de serem trans (40%), agressões físicas (17%) e violência sexual (12%).
Além da frequência das violências relatadas, o levantamento chama atenção para a dificuldade de reconhecê-las. Embora mais da metade das entrevistadas tenha vivenciado episódios de violência, apenas 9% disseram explicitamente ter sofrido violência de gênero. Segundo a pesquisa, essa diferença pode estar relacionada à recorrência dessas experiências no cotidiano, fazendo com que deixem de ser reconhecidas como violência.
Para Beatriz Accioly, antropóloga e gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, tornar essas experiências visíveis é um passo essencial para ampliar a produção de evidências e fortalecer políticas públicas de prevenção e proteção.
“A violência contra mulheres trans e travestis não aparece apenas nas formas mais extremas. Ela também se manifesta em ofensas, humilhações, constrangimentos e pequenas exclusões cotidianas que, de tão frequentes, acabam sendo naturalizadas. Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos. É justamente por isso que dar visibilidade a essas experiências e produzir dados sobre elas é uma etapa indispensável para construir políticas públicas de prevenção e proteção“, afirma Beatriz.
As diferentes formas de violência também ocorrem nos espaços públicos: mais da metade das entrevistadas (54%) afirmou ter se sentido desconfortável nesses locais no último ano, 38% relataram ter sido mal atendidas em órgãos públicos por serem mulheres trans, 27% passaram pela mesma situação em serviços de saúde e 20% disseram ter sido impedidas de entrar em espaços públicos.
Episódios de violência no contexto doméstico ou familiar foram citados por quase metade das entrevistadas (47%) e 77% disseram conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que sofreu esse tipo de violência. Entre as vítimas, a violência psicológica foi a mais recorrente (95%), seguida da física (80%) e da moral (80%).
Os dados mostram ainda uma baixa procura pelos serviços de proteção: entre as 32 mulheres que relataram ter vivenciado pelo menos uma das situações de violência ou discriminação investigadas, apenas três disseram ter buscado algum serviço de proteção à mulher e, dessas, todas afirmaram ter sido atendidas quando recorreram a esses serviços.
Ao ampliar a produção de evidências sobre as experiências de mulheres trans e travestis, o novo recorte contribui para dar maior visibilidade a diferentes formas de violência de gênero e oferece subsídios para o fortalecimento de políticas públicas de prevenção e proteção.
Para consultar esses e outros dados, acesse o Mapa da Violência de Gênero.









