Ceará almeja universalização do ensino médio em tempo integral ainda este ano

A convite do Instituto Natura e do Instituto Sonho Grande, jornalista do Valor Econômico viajou ao Ceará para acompanhar de perto a expansão do Ensino Médio Integral e conhecer os desafios da universalização do modelo e o impacto cultural nas comunidades quilombolas.
Por Grace Vasconcelos (Valor Econômico)
De Fortaleza e Horizonte
Às 5h da manhã, Kryslane da Silva, de 17 anos, já está acordada para pegar o ônibus e chegar antes das 7h à Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Maria Menezes de Serpa, em Fortaleza. A estudante do 3° ano do ensino médio passa o dia todo na escola, ocupada com aulas, projetos e preparação para o Enem. Só volta para casa às 17h. “Minha rotina é um pouquinho puxada, embora muito gratificante, porque eu gosto muito de estar aqui”, conta.
O dia a dia de Kryslane é semelhante ao de quase 200 mil estudantes da rede estadual cearense e representa uma das principais apostas do Estado para a educação. A meta do Ceará é universalizar o ensino médio em tempo integral até o fim deste ano. Segundo a Secretaria da Educação (Seduc), 88% das escolas estaduais já funcionam nesse modelo. O Ceará é o quarto colocado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do ensino médio. Há dez anos, estava em 10°.
A rede estadual conta com 773 escolas, das quais 613 funcionam em tempo integral. Desse total, 452 são Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTIs) e 138 são Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEPs). A rede também inclui unidades de tempo integral voltadas a públicos específicos, como pessoas privadas de liberdade, além de escolas do campo, militares e quilombolas.
Ainda restam 160 escolas fora do modelo, mas apenas 80 devem aderir ao ensino em tempo integral até o fim do ano. A outra metade é formada, principalmente, por Centros de Educação de Jovens e Adultos (Cejas) e escolas indígenas. Segundo a Seduc, essas instituições não foram incluídas na meta por apresentarem características e organizações pedagógicas próprias.
Ana Paula Nogueira, responsável pela Coordenadoria de Educação em Tempo Integral do Ceará (Coeti), afirma que o grande desafio são questões estruturais. Ela explica que as escolas que ainda não ingressaram no tempo integral possuem alto número de matrículas e atendem a um público grande. Por isso, é necessário, antes, reforçar a rede física para integrá-las, o que significa construir mais salas ou mais escolas.
O plano de universalização inclui a construção de 138 escolas, seja para criação de novas unidades ou para substituição de prédios já existentes. Atualmente, 103 obras estão em execução. O investimento total nas construções ultrapassa R$ 1,6 bilhão.
Nova proposta pedagógica e protagonismo juvenil
As escolas de ensino médio em tempo integral podem ofertar uma jornada de até nove horas diárias, formando um currículo de 45 horas semanais, garantindo ainda três refeições aos estudantes. Nesse modelo, as aulas vão das 7h às 17h. Existem também escolas integrais com períodos de sete horas, no turno da manhã ou da tarde.
O tempo integral no ensino médio começou a ser implantado em 2016. As escolas contam com currículo dividido entre formação geral básica e itinerários formativos, com disciplinas eletivas escolhidas pelos alunos.
Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, explica que a ampliação do tempo na escola é importante por diversos fatores, como segurança alimentar, proteção social e o fato de o aluno ter mais tempo para aprender. Mas a escola não pode ampliar a hora-aula para oferecer mais do mesmo, comenta. “Não é aquela escola que você vai ficar mais tempo para todo mundo ficar enfileirado tendo aula de matemática. Porque isso não funciona. O que funciona é o aumento do tempo para viabilizar uma nova proposta pedagógica, uma escola que integra eletiva, tem atividades intencionais para incentivar o protagonismo estudantil e currículo flexível”, diz Gontijo.
Na escola EEMTI Maria Menezes de Serpa são oferecidas as disciplinas eletivas de laboratório de redação para o Enem, educação para a sexualidade, informática básica, astronomia, robótica, entre outras. A instituição também abriga o projeto “Sim, eu falo sobre isso”, do qual Kryslane participa, e reúne cerca de 15 alunos para discutir temas como gênero, sexualidade e violência contra a mulher.
“Eu gostava dessas pautas, mas não tinha senso crítico. Quando a gente fala sobre coisas relacionadas à política ou sociais, às vezes escuta, dentro da nossa própria casa: ‘Ai, não vamos falar sobre isso’. Só que é muito importante, principalmente para as mulheres, serem letradas e estudarem sobre esses assuntos, principalmente para melhorias”, afirma Kryslane.
Enis do Nascimento, diretor da escola, avalia que o tempo ampliado permitiu que a equipe criasse um vínculo forte com cada aluno e que o principal foco da instituição é formar o cidadão para a vida, para o mercado de trabalho e para o ingresso na universidade. “Quando eles saem deste endereço aqui, atravessam a rua e entram na universidade, a missão está cumprida”, conta.
O desafio e a identidade nas escolas quilombolas
A cerca de 45 quilômetros de Fortaleza, no município de Horizonte, a escola quilombola Antônia Ramalho da Silva foi uma reivindicação histórica do quilombo de Alto Alegre. A nova sede da instituição de ensino foi inaugurada em agosto de 2025.
A escola de ensino médio atende a mais de 200 estudantes, a maioria autodeclarada negra. A estrutura conta com quatro salas de aula, laboratórios de ciências e informática, biblioteca, quadra esportiva, bloco de recreação com cozinha e refeitório, além de auditório e setor administrativo. A construção custou R$ 12,9 milhões.
A secretária da Educação, Jucineide Fernandes, explica que as escolas quilombolas também não entrariam inicialmente no modelo integral, porque era necessário um diálogo maior com a população. Nesse caso, foi a própria comunidade que apresentou a proposta de aderir ao ensino em tempo integral.
Segundo Fernandes, a nova unidade seguia inicialmente o mesmo currículo das demais escolas da rede, mas já começou a reorganizar a grade para incorporar elementos ligados ao território. O coordenador da escola, Emílio Lopes, explica que, nesse processo, foi criada a disciplina especial “Tempo de Pesquisa no Território Quilombola”, chamada apenas de “Tempo Quilombo”, que reserva as tardes de segunda-feira para que os alunos pesquisem os quilombos da região. Segundo ele, a proposta foi construída pela equipe escolar em articulação com a comunidade e lideranças locais.
“Para não comprometer esse tempo que eles teriam dentro do território, nós pensamos o Tempo Quilombo e falamos para a secretaria: ‘Olha, a gente está com a escola em tempo integral e estamos tirando as pessoas de dentro do quilombo. Vamos pensar uma alternativa’, e aí surgiu a disciplina para os alunos passarem a tarde no quilombo fazendo pesquisa prática e conhecendo o quilombo”, conta Emílio.
Revisitar a própria história é motivo de orgulho para a estudante quilombola Ana Vitória da Silva, de 16 anos, aluna do 2º ano. Foi isso que ela e outros estudantes fizeram no último dia 8 de maio, quando o Valor visitou a escola. Os alunos apresentaram os trabalhos desenvolvidos na disciplina Tempo Quilombo.
Os estudantes contaram histórias de trabalhadores, lideranças, tradições e crenças dos quilombos do Alto Alegre e da Base por meio de vídeos, entrevistas e danças. Alguns alunos usavam roupas de capoeira, trajes de dança e até pintaram os corpos. “O que a gente escuta nos dá resistência, experiência e muita inspiração”, destaca Ana Vitória.
Para a estudante, pessoas da própria comunidade, como a artesã Antônia Ramalho, deveriam ser reconhecidas ainda em vida como fonte de inspiração. A artesã, mesmo sem ter aprendido a ler e escrever, dedicou a vida a transmitir os saberes do território e hoje dá nome à escola.
“A escola quilombola nos deu oportunidades que muitas escolas não dão. Ela dá a oportunidade de expressar os nossos sentimentos. A gente sente a cultura e se sente dentro dela. Tem gente que não é quilombola, mas se sente parte da comunidade, porque é uma escola que acolhe, independentemente de quem você seja. Para mim, a escola é uma marca de muita resistência e coragem, porque a gente lutou bastante por ela e continuamos lutando por mais, porque as pessoas merecem”, diz Ana Vitória.
O professor de matemática Ricardo da Silva também explica que a forma de ensinar na escola é diferente. Mesmo sendo quilombola, ele conta que precisou repensar a maneira de trabalhar a disciplina. A matemática passou a ser ensinada a partir da realidade dos alunos, com questões ligadas ao cotidiano da comunidade, às manifestações culturais e à história do povo.
“A importância dessa escola é exatamente esse trabalho diferenciado: educação quilombola dentro do nosso território, onde a gente trabalha a vivência do nosso quilombo. Onde os alunos podem adentrar esse espaço, conhecer a sua história, resgatar a cultura e também entender a própria trajetória, para que, dessa forma, possam valorizar aquilo que hoje eles têm”, conta o professor.
Resistências e os custos da expansão nacional
Jucineide Fernandes reconhece que ainda há resistências ao ensino em tempo integral por parte dos próprios professores, gestores e alunos. Na avaliação dela, elas estão mais ligadas ao tradicionalismo e a uma cultura escolar mais rígida, além do fato de muitos alunos ainda chegarem ao ensino médio acostumados ao modelo parcial.
Ela conta que recebe mensagens de estudantes pedindo, por exemplo, que as aulas ocorram em apenas quatro dias da semana, por causa do cansaço provocado pela rotina mais longa. Para la gestora, esse tipo de demanda é um “bom desafio”, que incentiva o poder público a construir uma escola mais atrativa, em que os alunos queiram permanecer.
Fernandes explica também que o governo apoia os municípios na implementação do modelo no ensino fundamental, etapa anterior ao ensino médio, para que os alunos se acostumem à cultura do ensino em tempo integral. A implementação começou em 2023, com as turmas do 9° ano.
Segundo a secretária, o novo modelo também exige uma atualização na formação de professores e gestores, para que consigam dialogar melhor com as novas gerações e trabalhar as especificidades de uma educação integral. Ela também afirma que uma diretriz fundamental para tornar a escola mais atrativa é reconhecer o próprio território como espaço de formação e aprendizagem.
“O estudante fica sem tempo de fazer alguma arte que existe na comunidade, então a gente também tem que pensar essa escola de forma diferente. Para garantir a aprendizagem, mas também o desenvolvimento dessas outras fases, porque o jovem também quer outras coisas. O estudante está na escola desenhando seu projeto de vida, mas em que hora ele começa a experimentar?”, questiona.
Ivan Gontijo explica que ampliar o ensino integral é uma agenda que custa caro e exige mudanças em várias dimensões. Ele conta que uma das principais questões é a infraestrutura, porque é difícil manter um aluno por nove horas em uma escola sem, por exemplo, banheiros adequados.
Segundo a Seduc, o investimento estimado no plano de universalização do ensino médio integral no Ceará foi de R$ 2,1 bilhões. A pasta afirma que os recursos foram destinados a obras de infraestrutura, além de despesas com manutenção, alimentação escolar, contratação de professores e profissionais terceirizados.
Gontijo afirma ainda que a expansão do ensino integral depende da adesão da população ao modelo. No Ceará já existe uma cultura consolidada do ensino em tempo integral, o que faz com que as famílias compreendam e aceitem mais facilmente a proposta, diz.
Outra mudança necessária, explica o especialista, envolve os recursos humanos. Segundo ele, o ideal é que os professores também passem a atuar em tempo integral na escola e, em muitos casos, precisem abrir mão de outros vínculos empregatícios que mantinham para complementar a renda.
“Nacionalmente, o grande desafio do tempo integral é que essa agenda custa caro. Você precisa se organizar para conseguir priorizar. Custa caro porque há mais merenda, tem a questão de que você precisa fixar os professores em uma escola, porque eles precisam trabalhar ali 40 horas. E, para isso, muitas vezes você precisa dar gratificações, porque, senão, vale mais a pena trabalhar em duas escolas diferentes”, explica Gontijo.
O cenário do Nordeste e o papel do terceiro setor
Iara Viana, gerente de Políticas Públicas de Ensino Médio no Instituto Natura, explica que o avanço da região Nordeste na agenda do ensino integral é histórico, já que a primeira experiência do modelo foi implementada em Pernambuco. Ela avalia que, em seguida, os Estados vizinhos também sentiram a necessidade de seguir o mesmo caminho.
Segundo o Censo Escolar 2025, os estados com maior número de matrículas no ensino médio integral da rede pública — considerando escolas federais, municipais e estaduais — são Piauí (75,1%), Pernambuco (60,3%), Ceará (57,9%) e Paraíba (51,2%).
Iara Viana destaca que o avanço do ensino integral também depende de vontade política. Ela explica que as instituições do terceiro setor prestam apoio técnico para fortalecer a agenda da política pública e despertar o interesse dos governadores. O trabalho inclui o mapeamento das redes de ensino, realização de estudos técnicos e apoio à gestão de recursos públicos para que caminhem sozinhos no futuro.
“No Ceará, há famílias que, mesmo sem um processo de escolarização, ainda enxergam um valor fundamental naquela escola porque o Estado está conseguindo comunicar bem os resultados. Quando se consegue comunicar bem essa política, eu vou ter mais pessoas querendo usufruir daquele direito”, destaca Viana.








