Diagnóstico precoce do câncer de mama avança com IA, mas rastreamento segue insuficiente no Brasil

Apesar do potencial da IA, há dificuldade de utilizá-la de forma estratégica a favor da saúde no Brasil.
Por Mariana Lorencinho, líder de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura, em sua coluna no Correio da Bahia.
A inteligência artificial tem potencial para revolucionar a saúde, e isso não é diferente no contexto do câncer de mama – o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil. Entre tantos exemplos, destaca-se a aplicação da IA na leitura de exames de mamografia, capaz de antecipar em anos um possível diagnóstico, bem como recomendar estratégias mais adequadas de rastreamento individualizado.
O rastreamento organizado, voltado às mulheres na faixa etária de maior incidência quando ainda estão assintomáticas, é reconhecido internacionalmente como a estratégia mais eficaz para assegurar o diagnóstico precoce do câncer de mama e, consequentemente, reduzir a mortalidade. O que se observa, entretanto, é que ainda estamos muito distantes dessa realidade enquanto país. O histórico de dados do Ministério da Saúde mostra que o Brasil mantém cobertura mamográfica próxima a 24% das mulheres na faixa etária-alvo, muito abaixo dos 70% recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Isso acontece porque faltam políticas estruturantes que considerem a distribuição e a qualidade dos exames oferecidos, ao mesmo tempo em que compreendam as especificidades dos territórios e invistam na qualificação profissional contínua para mudar esse cenário. Esses elementos são essenciais para garantir encaminhamentos ágeis, reduzir exames desnecessários e, ao mesmo tempo, diminuir o represamento de mulheres que chegam aos serviços com diagnósticos avançados por falta de acesso oportuno.
Paralelamente, é indispensável assegurar que as mulheres tenham acesso a informações de qualidade e se sintam fortalecidas para buscar consultas e exames de rotina. O Índice de Conscientização do Câncer de Mama, criado pelo Instituto Natura e Avon para analisar anualmente o conhecimento da população brasileira sobre a doença, revela que muitas mulheres não sabem a idade mínima para iniciar a mamografia de rastreamento – 14% acreditam que deve ser feita em todas as idades, 25% acham que é antes dos 40 anos, 32% não sabem dizer quando e 86% não sabem que o exame pode ser realizado em qualquer idade em caso de suspeita.
Nesse contexto, apesar do potencial da inteligência artificial, há dificuldade de utilizá-la de forma estratégica a favor do desenvolvimento da saúde no Brasil. Mais do que localizar as mulheres com maior risco a partir de exames já feitos, é necessário garantir que elas façam os exames. É necessário também produzir comunicações eficazes sobre o câncer de mama e a mamografia, que sensibilizem sobre a importância do autocuidado, que derrubem mitos profundamente enraizados e contribuam para superar as barreiras que ainda dificultam o cuidado com a saúde das mulheres.
Imagem: José Cruz/Agência Brasil





