Quase 25 milhões de brasileiras viveram situações de violência sem reconhecê-las, diz Mapa da Violência

Atualização da plataforma, mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência, Instituto Natura e Gênero e Número, traz dados das 27 unidades da Federação.
Das quase 29 milhões de mulheres que sofreram violência doméstica ou familiar em 12 meses no Brasil, cerca de 87% (24,97 milhões) relataram situações concretas de violência sem declará-las ou nomeá-las espontaneamente como violência. É o que indicam os dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Instituto Natura e Gênero e Número, que acaba de ser atualizada com os resultados estaduais da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado.
Quando se soma a esse grupo 1,87 milhão de mulheres que declararam ter sofrido violência, mas não acionaram a delegacia, o Ligue 180 ou o 190, chega-se a 26,84 milhões de brasileiras, ou 93,6% das vítimas, na lacuna entre a violência vivenciada e a busca por proteção policial.
A violência que não é reconhecida como violência
A pesquisa mostra que apenas 4% das brasileiras declaram ter sofrido violência doméstica ou familiar a cada 12 meses. Porém, ao serem questionadas sobre situações específicas de violência, sem que o termo fosse citado na pergunta, esse percentual sobe para 33%. Isso significa que 29% das brasileiras vivenciaram essas situações sem identificá-las e nomeá-las espontaneamente como violência.
“O Mapa Nacional não é apenas mais um agregador de dados sobre o tema, ao contrário, é talvez o principal instrumento público, efetivo, capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil”, afirma José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.
Essa distância ajuda a explicar por que os registros administrativos, isoladamente, não dão conta de medir o problema. Os sistemas públicos de segurança, saúde e justiça captam apenas uma fração da violência de gênero de fato vivida pelas brasileiras. Por isso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero reúne em um só lugar os resultados da Pesquisa Nacional, os Registros Internacionais (Itamaraty) e os registros administrativos de Segurança Pública (Sinesp/MJSP), da Justiça (DataJud/CNJ) e da Saúde (DataSUS/MS), permitindo uma visão ampla sobre o problema social.
O Mapa na imprensa
Veja a repercussão dos novos dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero nos principais veículos do país.
O cenário nos estados
Na comparação entre os estados, Alagoas é o único com índice estatisticamente superior aos 29% estimados para o país: 36% das mulheres vivenciaram situações de violência sem declará-las como tal. Amazonas (35%), Acre e Tocantins (34%) aparecem na sequência, com os percentuais mais elevados, mas os valores estão dentro da margem de erro da estimativa nacional, o que não permite classificá-los como distintos desse patamar. Na outra ponta, os menores percentuais registrados são os do Paraná (23%), São Paulo (24%), Roraima e Rondônia (25%).
“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo. Se a mulher não reconhece o que vive como violência, torna-se muito mais difícil procurar proteção e acolhimento. Por isso, informação de qualidade não é algo acessório: é parte fundamental de qualquer política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres. Não basta que a rede esteja preparada para acolher quem chega; precisamos também criar caminhos para alcançar quem ainda não consegue reconhecer que pode buscar ajuda”, afirma Beatriz Accioly, Gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura.
Para Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que é preciso olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar à Rede. “Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma.
Os impactos da violência se estendem para além do episódio de agressão. Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar por parte de um homem, considerando a agressão mais grave vivida, 69%, em nível nacional, afirmam que o episódio afetou sua rotina diária, com o maior impacto no Tocantins (78%) e o menor em Pernambuco (58%).
A vulnerabilidade econômica também é um fator relevante nesse grupo: no país, 56% vivem com renda familiar de até dois salários-mínimos, proporção que chega a 74% no Maranhão e em Sergipe e cai para 35% em Santa Catarina. Em 62% dos casos no Brasil, o agressor é o marido ou companheiro da vítima, proporção que sobe para 73% no Acre e cai para 48% no Distrito Federal.
“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado e que a violência não termina quando a agressão acaba. Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida. Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.
Movimento pela Vida das Mulheres
O Instituto Natura integra essa iniciativa permanente, ao lado de Avon, Instituto Maria da Penha, Senado Federal, Grupo Mulheres do Brasil, Gênero e Número e NO MORE Brasil, para ampliar o reconhecimento da violência, orientar a sociedade sobre como agir e fortalecer uma cultura de prevenção e proteção.
Acesse a página da campanha Somos Maiores que a Violência, criada pela Avon e pelo Instituto Natura e apoiada pelas organizações que integram o movimento, com informações, dados, orientações e materiais para compartilhamento nas redes sociais para que mais pessoas possam reconhecer, nomear e agir diante das violências contra as mulheres.










